A SAUDADE E O APEGO
Boa tarde, disse-me a senhora que encontro, todos os dias,
no parque em que costumo me exercitar.
Boa tarde, respondi. Ela pediu licença e se sentou ao meu
lado, no banco no qual eu me encontrava.
Sabe, meu filho, disse ela, dando uma leve batidinha em minha mão, hoje estou muito feliz, pois essa noite tive
um sonho maravilhoso e muito peculiar.
Ela desejava conversar, compartilhar com alguém a
sua experiência.
Sonhei que caminhava por
uma belíssima praia, sozinha, sentindo a brisa doce do mar.
Porém, em certo momento,
duas figuras vieram ao meu encontro e me ofertaram os braços. E, mesmo que eu
não conseguisse identificar os rostos delas, aceitei o convite gentil.
Desse modo, uma à minha
direita e outra à minha esquerda, começamos a caminhar os três, de braços dados.
Percebendo o meu interesse, ela prosseguiu:
Em certo momento do meu
sonho, aqueles desconhecidos que caminhavam comigo me apontaram o pôr do sol,
que se fazia esplêndido no horizonte.
Extasiada, contemplei
aquela beleza. Quem estava à minha esquerda falou: “Não seria perfeito se o
tempo congelasse, neste instante, e tivéssemos este espetáculo eternamente?
Assim, em qualquer momento que o quiséssemos, ele estaria à nossa disposição.
Ponderei tais palavras
e, quando estava prestes a concordar, a figura da direita disse: Melhor ainda
não seria registrar tal instante nas telas de nossas recordações e acessá-lo
sempre, onde e quando quisermos?
Lembraríamos do momento
com carinho e o teríamos dentro de nós, como prova de que esse momento fez-se
inesquecível.
Porque o tempo garante
que tudo passe, que tudo se modifique, que tenhamos encontros e reencontros, mas as boas recordações são a certeza de que eles
foram especiais.
Assim ocorre com o sol
em seu curso diário, ora nascendo, ora se pondo. Mas são as lembranças que
trazemos de cada ciclo que o faz único.
Quando o sol,
finalmente, desapareceu no horizonte, as duas figuras despediram-se de mim e
fizeram menção de partir... Dei-me conta de que não as conhecia, não conseguira
lhes enxergar o rosto. Perguntei: Quem são vocês?
Aquela que estivera à
minha esquerda foi a primeira a responder: Chamo-me apego.
A da direita respondeu
imediatamente depois: Chamo-me saudade.
Dando outro tapinha carinhoso em minha mão, a
senhora levantou-se do banco e, sorrindo, disse adeus, deixando-me mergulhado
em pensamentos e na companhia de um belo cair de tarde...
Alguns de nós confundimos saudade com apego.
Quando um ente querido parte para as esferas do
infinito, muitas vezes transformamos as boas recordações que dele temos em
apegos infindos, inconformados por esses instantes de alegria terem ficado no
passado.
E, por muito pensarmos no ontem, nos esquecemos do
futuro.
Que a saudade que cultivamos daqueles que partiram
nos conserve a certeza de que o passado foi valoroso e que o tão desejado
reencontro se dará.
Tão certo como o sol irá nascer mais uma vez
amanhã...
Pensemos nisso.
TEXTO: Momento Espírita.
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